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Agnaldo Farias

 

(texto publicado no livro “Obras Comentadas – Da Coleção do Museu de Arte Moderna de São Paulo”, páginas 12 e 13 – edição fevereiro de 2007).

 

“Xylonkhalkosserigrapheinkollagem”... Por si só o título desses trabalhos de César Brandão sugere acumulação de materiais e ações; a idéia da obra de arte como um processo em pleno curso, tumultuado, mas só na aparência, dado que perpassa neles um desejo feroz de controle.

 

Surpreende de saída a presença variada e ostensiva de cada um dos elementos que os compõem, do papel reciclado até os fios, arames e barbantes, as lâminas de papel e metal cortados e rasgados que lhe vêm colados, amarrados, sobrepostos e justapostos ao lado de textos, rabiscos e rasuras. O papel não é um suporte neutro, paisagem calma como talvez sugerisse uma folha em branco. Há algo de mineral na sua porosidade, algo de couro também, efeito que se evoca da sua aspereza e, por fim, algo de vegetal que um dia ele foi, raspado, macerado e decantado pela ação da água que um dia fluiu pelos seus tecidos. Trata-se, portanto, de um campo impuro, denso e resistente, capaz de receber não só o grafite, mas também a gama variada de materiais que o artista aplica sobre ele.

 

É nessa sorte de paisagem que César Brandão combina e arranja suas colagens/desenhos com materiais de natureza e dimensões variáveis. Ao sulcar o papel, o desenho faz dele a terra arada de onde germinarão imagens. Ao fixar-lhe fragmentos de metais, o papel atua como um imã que atrai para si pedaços das coisas, cacos planos, achatados e filiformes. Mais que ser atraído, o fio de arame grosso é achatado pelo artista a golpes de martelo, num esforço de fazer retornar o metal à paisagem de onde saiu, mesmo que ao final, ele acabe apenas vizinho à delicada espessura do grafite.

Jorge Coli

 

(texto publicado no livro “Obras Comentadas – Da Coleção do Museu de Arte Moderna de São Paulo”,  páginas 90 e 91 – edição de fevereiro de 2007).

A força criadora de César Brandão não se encontra em uma única obra, embora seja sempre poderosa em cada obra. Ele é artista de exceção pelo universo que cria, feito de associações e ressonâncias, em que não cabe qualquer noção de “estilo” – marca exterior facilmente identificável. Explora campos poéticos, situados muito além da visão. Seu motor não é nem “plástico”, nem “formal”, nem “narrativo”: ele é constituído por obsessões. Obsessões pelas matérias, não como instrumentos destinados a uma construção ou composição, mas tomadas nas suas existências de matérias, nos seus segredos de massas ou de fluidos invisíveis, transformando-se, mesmo quando são pétreas ou minerais, em estranhos organismos que se comunicam por proximidade, por associação. Sua busca evoca o modo de pensar dos pré-socráticos, eles também a procura de uma arché material, constitutiva do mundo. Brandão atinge uma profundidade que desmonta e denuncia as práticas artísticas. A tal ponto que, diante dele, o vocabulário, os modos habituais da análise ou da crítica, mostram-se inadequados ou impotentes. Mesmo as metáforas que poderiam servir para iluminar um raciocínio ou um discurso não surgem com facilidade. Seria possível dizer que suas obras são mapas que levam a intuir as relações secretas das matérias desde sua vida interior e invisível até o modo como afloram para os olhos. A idéia de mapa, porém, é insuficiente, porque mapa remete a uma outra realidade, fora dele. No caso de Brandão, seu mapa é ao mesmo tempo o mundo, porque se dá como indicação, caminho, lugar e ser.

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