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NO ATRITO DAS PEDRAS

(Roteiro para vídeo em VHS, em 1991)

 

Imagens: Jorge Marin

Trilha sonora original: Paulo Motta

Produção e seleção musical: Ione Ribeiro

Legendas: Alaor Mattos

Roteiro e direção: César Brandão     

Data: 1991- para individual na ITAUGALERIA em Belo Horizonte - MG

 

Argumento para “vídeogambiarra”

Projeto para  vídeo  “feito em casa”.  Com todos os defeitos de uma produção precária incorporados ao resultado; ou seja, cenas gravadas na seqüência do roteiro e sem qualquer edição posterior. Apenas com o acréscimo das músicas e da trilha sonora original. Também dos créditos:  pintados à mão e com tinta acrílica sobre placas de vidro (gravação em frente a um monitor de TV com os “chuviscos” de fora-do-ar como fundo). Um “VÍDEOGAMBIARRA.”

 

CENA UM

 

Imagem desfocada. Aos poucos, entrando em foco. Câmera fixa. Foco fechado nas mãos do personagem/ator. Personagem com roupa preta (jaqueta de couro) e no escuro. Suas mãos, na altura do peito, batem duas pedras na tentativa de, daquele atrito, produzir fogo.

Após algumas batidas/segundos, o som do atrito das pedras é substituído por música ritual dos Indios Suyá (A Arte Vocal dos Suyá - Edições Tacape - 1982).

A imagem permanece alguns segundos fixa nas mãos que atritam as duas pedras. A música vai diminuindo de volume, até o retorno do som das pedras. Mais algumas batidas, as mãos se afastam. A câmera vai se aproximando, lentamente, em direção ao centro da cena; enquanto que as mãos, se afastando, formam uma espécie de moldura da imagem.

Foco no escuro da jaqueta preta e na altura do peito. Repentinamente, a cena se desfoca. Dissolve-se. Fade out.

Corte.

 

CENA DOIS

 

Câmera fixa. Ainda no escuro. Ainda na jaqueta preta. À altura do peito.

As mãos riscam um fósforo. Luz do fósforo explodindo na tela. A cena se ilumina. Na mão direita, o fósforo. Na esquerda, a caixa.  O fósforo se apaga por um  movimento brusco da mão. Outro fósforo é riscado... apagado. As mãos continuam acendendo fósforos. Um, após o outro. Risca-o. Apaga-o. Som do atrito do fósforo na caixa.  Som da chama que se acende. Câmera fixa nas mãos/chama/escuro. Luz... Escuro; luz... Escuro; Luz...

Lentamente, o som dos fósforos riscados é substituído por outra música ritual dos Indios Suyá. O volume da música vai subindo aos poucos. A imagem permanece. Um fósforo atrás do outro. A música no lugar do som dos fósforos. Após alguns segundos/fósforos, a música começa a diminuir o volume, até o corte total. Volta o som dos  fósforos.

Mãos agitadas. Continuam a riscar e a apagar fósforos. Riscam mais alguns e apagam o último, com um movimento suave e lento.

As mãos se afastam (também em movimento lento, suave). A câmera direciona o foco para o fundo da imagem, passa entre os resíduos da fumaça do último fósforo, dissolvendo-se no escuro. Desfoque total. Corte.

 

CENA TRÊS

 

Câmera fixa. Escuro. Uma luz se acende ao longe. Apaga-se. Imagem de um monitor de TV, fora do ar, que se alterna entre claro e escuro, devido ao acende e apaga da troca de canais. Som do bip do controle remoto. Som dos “chuviscos” da TV. Câmera distante. Imagem do monitor de TV, ao fundo. Acionado o canal do videocassete, inicia-se uma imagem na TV.  Em preto e branco. Câmera se aproxima. Foco total na cena. Tela cheia. Som do filme que passa na TV. Atores conversando. Parte final de Cidadão Kane, de Orson Welles. Entre os caixotes e utensílios do inventário de Mr. Kane. Até o momento que aparece a legenda e a fala do ator sobre ROSEBUD: “...Nenhuma palavra pode explicar a vida de um homem...”

Bruscamente, desaparecem as imagens de Cidadão Kane. Voltam os chuviscos da TV.

Corte.

 

CENA QUATRO

 

Câmera no chão. No meio da cena, imagem dos pés do personagem. Com botinas. Pretas. No primeiro plano, uma pequena bola de cera de abelha. Ao fundo, uma caixa de pó Xadrez preto e um pote de plástico cheio de grafite em pó. Som em sincronismo com as imagens: música de Paulo Motta (flauta, percussão e resíduos eletrônicos).

Câmera permanece no chão. Fixa. Personagem pega a caixa de pó Xadrez e começa a derramar o pó. Do fundo, para o primeiro plano, até a bola de cera de abelha. Forma, no chão, uma linha de pó. E volta, novamente derramando o pó sobre a mesma linha, até o fundo. Deixa a caixa e pega o pote de grafite. Repete a operação. Derrama a grafite numa linha reta e paralela ao pó Xadrez. Do fundo ao primeiro plano. E vice-versa. Música e imagem em sintonia absoluta. Um leve corte na imagem. Câmera em outra posição. Agora de cima para baixo. Focando, no chão, a imagem das duas linhas paralelas de pó. Inicia um passeio sobre as linhas. Quase-travelling. Avança. Do início das linhas, no primeiro plano, até ao seu final, ao fundo. Foca o último monte de grafite. E inicia, lentamente, uma aproximação. Dissolve-se sobre o pó.

Fade. Leve corte.

 

CENA CINCO

 

A música permanece a mesma. Câmera fixa na imagem que se abre: - a base de um objeto preto. Bastão de madeira. Da série “GambWARrha” (1987). Pendurado na parede.

Câmera inicia um passeio. Vai subindo. Mostrando cada detalhe do objeto. Até o corte final, em seu topo.

Repete a operação. Fixa-se na base de outro objeto da mesma série. Agora, foco em movimento, de baixo para cima. Corte no topo do objeto.

Após a exibição de vários objetos da série (e todos na mesma posição: pendurados à parede), um leve corte.

Mesma música. O último objeto da imagem anterior, agora se encontra no chão. Imagem quase macro. Passeando sobre a superfície do objeto. Mostrando os detalhes. Até que, entre a madeira e os barbantes, encontra um inseto em movimento. Um “tatuzinho de jardim”. Acompanha o seu movimento sobre o objeto. Música da flauta, agora mais suave. Acontece, então, mais um leve corte. Nova imagem aparece. Uma fotografia em preto e branco. Um casal, de costas, sobre uma montanha. Na parte superior da imagem, o título: “LIMITE”. Fotograma do filme de Mário Peixoto. Câmera centra o foco em “limite”. Aos poucos vai saindo de foco até o desaparecimento total da palavra.

Corte.

 

CENA SEIS

 

A música é a mesma. Porém, em acordes finais. A imagem que se abre é a de um ”X” preto sobre piso de madeira (instalação “Marcar-Demarcar 01”, 1981, pág.    ). A imagem é substituída por outra. A câmera está fixa. O som é o do projetor de slides.  Câmera permanece focando a tela onde é exibido slide após slide. Uma revisão seqüencial de vários trabalhos/instalações. Alternância entre claro e escuro (intervalo entre a passagem dos slides) e o som do projetor, compassando o movimento da exibição. Imagem após imagem.  Ao chegar à imagem da instalação no Parque Halfeld (Linha-Cor-Espaço, 1983, pág...), entra a voz em off que, ritmada pelo som do projetor que continua exibindo as imagens, começa a narrar o texto:

         

            “Minha tribo não é a deles. Entre o limite do coRpo, meu espaçO é de         fumaça e ferro. Terra, mato e  pedraS. A necEssidade do encontro gerou a expectativa da Busca. De Um laDo, os pés descalços passeiam entre a água barrenta da enxurrada. Em frente, os olhos decifram fumaça de carbureto e sonham com a hipótese dos contrários. Na retina, habitação e fuga. Na memória, carvão e giz. Quero construir os signos da vivência: as marcas na trilha em direção à aldeia. Da cultura, quero os espelhos em troca de meus utensílios de barro. Contra os vazios da herança, a tradição das pedras. Minha tribo é de rituais arcaicos para a liberação da essência. Pintura corporal em cenário para casulos. De terra, fogo e metal. No atrito das pedras, ao fogo dos deuses”.

 

Ao final do texto, corte do som do projetor. Entra a música de Paulo Motta e imagens seqüenciais da instalação em “Um Espelho no Escuro” (1988, Palácio das Artes/BH-MG). Logo após, as imagens da instalação “Contra o Canto das Sereias” (19a. Bienal São Paulo, 1987 ), até chegar à projeção do slide com a inscrição “Marcas na Trilha em Direção à Aldeia”. Acordes finais da música. A imagem, lentamente, vai se diluindo.

Corte.

 

CENA SETE

 

Tela em branco. Cena rápida. Em foco. Um espelho que reflete a imagem do personagem/artista. Câmera se afasta, veloz. A cena está passando num monitor de TV. O personagem agora, na mesma imagem da TV, caminha em direção ao primeiro plano. Rapidamente, o mesmo personagem das imagens da TV, entra em cena, e em direção ao monitor de TV. Foco no rosto do personagem ocupando toda a tela em frente da TV. Desliga-a. A imagem some em sincronia com o apagamento da luz da TV. Corte.

CENA OITO

 

Composta de seis partes.

 

1) Imagem trêmula. Entrando em foco. Fotograma do Cão Andaluz de Luis Buñuel e Salvador Dali. O olho aberto, pronto para ser cortado. Ao fundo, o som de uma voz feminina narrando, em off:  -“Só o olho decifra um quadro”.

 

2) Outra imagem do Cão Andaluz: a navalha cortando o olho. Em off, voz masculina: -”só o olho decifra um quadro”.

 

3) Foco em um olho, de um personagem feminino. Outra voz masculina, em off: -”só o olho decifra...”

 

4) Imagem desfocada, trêmula, entre o foco e desfocamento. Aos poucos, em foco:

- “Rotative d’hémisphère” de Marcel Duchamp (Anémic Cinéma,1926)”.  Voz feminina, em off: -”Só o ouvido decifra um som”.

 

5) Imagem de um ouvido feminino. Fora de foco e, rapidamente, entrando em foco.

Voz, em off, agora masculina: -”Só o ouvido decifra um som”.

 

6) Câmera fixa num ponto branco e se afastando bruscamente, entre foco e desfocamento, revelando a imagem: Auto-Retrato com Orelha Cortada, 1889, Van Gogh.

Outra voz masculina: -”Só o ouvido decifra...”

Desfocamento brusco. Corte.

 

CENA NOVE

 

Imagem em foco. Câmera fixa. Nos pés do personagem/artista que segura a ponta de um bastão de madeira, tendo a outra extremidade em diagonal, apoiada no chão.

Personagem levanta o pé direito e, de forma violenta, pisa sobre aquela madeira, partindo-a.

Som direto: - o barulho do pau se quebrando.

Corte.

 

CENA DEZ

 

Black-leader. Som de rádio AM. Sintonia confusa. Diversas vozes misturadas. Sons e ruídos entrelaçados. Microfonia. Sons eletrônicos (música de Paulo Motta). Câmera em movimento. Focando detalhes de um objeto feito com o mesmo tipo de bastão de madeira que fora quebrado na cena anterior. Leve corte. A câmera inicia uma viagem por detalhes de outros objetos e instalações. Passeia. Da esquerda para a direita; da direita para a esquerda. Promove sobreposição de  imagens. Fixa detalhes de diversos trabalhos feitos em madeira, pedras, latas enferrujadas, etc. Tudo isto ao som das interferências de ruídos e vozes na tentativa de sintonia das emissoras de rádio. Polifonia. Sons oscilantes. Na falta da sintonização correta da freqüência. Imagens difusas. Detalhes diversos. Repentinamente, o som é cortado. Volta o silêncio.  A câmera se aproxima de um detalhe de objeto fixado à parede. Macro. Ocupando toda a cena: - um pedaço de  barbante.

Corte.

 

CENA ONZE

 

Imagem fora de foco de um objeto ocupando toda a tela. Sem som algum. Câmera começa a se afastar e, aos poucos, objeto vai entrando em foco. Objeto: uma escova circular de aço acoplada a uma furadeira.

A furadeira é ligada. Som da rotação da furadeira. Imagem, em primeiro plano e em foco, da escova rodando.

Corte.

 

CENA DOZE

Cena externa. Um tecido de algodão cru formando o fundo. Piso, de cimento cru. Um objeto fundido em alumínio encostado no algodão. Barulho de furadeiras elétricas; porém, agora, provenientes da música de fundo: “PROLOG” do grupo alemão Einstuerzende Neubauten.

Câmera fixa. Mostrando,  em foco, os objetos fundidos. Um após o outro. Sempre sem movimento. Apenas leves cortes, e novos objetos. Imagem... Corte... E novo objeto...

O algodão, pano de fundo, alterna-se em novas formas. Resultado da troca dos objetos. Mas a câmera apenas registra o novo objeto no fundo. Não há personagem. Somente os objetos, o corte, o novo objeto, e o fundo, alterado pelo movimento. Tudo isto ao som do texto em alemão e do barulho das furadeiras da música.

Câmera, agora, fixa no chão. Um objeto em bronze fundido (da série “Aldeia”-1987/88) aparece sobre o piso de cimento. Leve corte. Outro objeto aparece ao lado deste. Leve corte. Outro objeto se junta aos outros dois. E assim por diante. Até a exibição do último objeto. Camera fixa, mostrando um após o outro. Corte total (da imagem e da música).

 

CENA TREZE

 

Composta por quatro partes

 

1)   Câmera, com o foco fechado, em uma furadeira sendo acionada. Imagem da parte traseira da furadeira e com a ponta da broca direcionada para o alto. Leve corte. Plano aberto. Personagem/artista de costas para a câmera. Agachado. Com a furadeira acionada e suspensa no ar. Desliga-a. Deixa-a sobre um banco. E levanta-se em direção a uma estante. Apanha um livro. Corte.

 

2)   Foco fechado no livro: O Inútil de cada um de Mário Peixoto. Corte.

 

3)   Câmera acima do nível da cabeça do personagem. Ainda de costas. Folheia o livro. Pára numa página. Câmera vai se aproximando lentamente do texto. Corte.

 

4)   Câmera fixa, com o foco fechado naquela página. Imagem total. Ocupando toda a tela com o texto: “Uma corrente bem emendada não mostra marcas; só quem sabe”. Câmera com o texto em foco e, após alguns segundos, inicia um movimento em direção à frase, como se nela desejasse entrar. Desfoca-se nas letras. E a imagem se dilui. Fade. Corte.

 

CENA QUATORZE

 

Imagem de TV fora do ar. Som de My Way, com Sid Vicious (Sex Pistols). Sobre os chuviscos da TV, o título NO ATRITO DAS PEDRAS e os créditos do vídeo.  Câmera fixa nos caracteres, feitos à mão, e com tinta acrílica preta sobre chapas de vidro. Ao fundo, os chuviscos ao som de My Way.  Leve corte. Outra placa de vidro. Leve corte... foco... outra placa... e, assim, até a última. Esta inicia um deslocamento para a esquerda, e o texto ali escrito, tendo os chuviscos ao fundo, vai desaparecendo da cena, ao sair da região de enquadramento da câmera.  A música continua acompanhando os chuviscos da TV.

 

FIM.

                                                                                        

 

César Brandão 1991